terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Lançamentos de fim de ano

Os fãs de literatura russa nunca tiveram um natal tão repleto de lançamentos como o de 2011. Primeiro tenho de voltar alguns meses para lembrar a todos do lançamento silencioso de Minha Vida (Моя жизнь), de Tchékhov, pela editora 34. Lançado originalmente em 1896, Minha Vida se destaca na bibliografia de Tchékhov como uma de suas obras mais extensas. O livro narra a história de Missail Póloznev, jovem que troca o conforto familiar pela vida proletária, tema recorrente nas obras dos autores que apareceriam mais tarde na Russia Soviética, porém incomum na obra de Tchékhov.


Minha vida: conto de um provinciano
Anton Chekhov
Editora 34
Tradução de Denise Sales
Editora 34
160 pag
R$35







O outro lançamento da editora 34, Nova antologia do conto russo, faz referência direta a Antologia do conto russo, coleção em oito volumes da editora Lux lançada em 1961 que abriu muitas portas pra literatura russa no país. A Nova antologia tem valor quase histórico no mercado editorial por conter autores inéditos no Brasil, como Nicolai Karamzin, fundador da prosa russa, ou Vsiévolod Gárchin, um dos maiores contistas da Russia do século XIX desconhecido no ocidente. Além destes, encontramos alguns velhos conhecidos: Dostoiévski, Tolstói, Gógol, Tchékhov, Púchkin, Liérmontov e Turguêniev, cobrindo dois séculos de prosa russa de maneira unica.

Nova antologia do conto russo 
(1792-1998)
Organização de Bruno Gomide
Editora 34
648 pag
R$74







A Ateliê Editorial lança Teatro Russo - Literatura e Espetáculo, das professoras Elena Vássina e Arlete Cavalieri: "Esta publicação traz um amplo debate sobre os  mais variados aspectos, que  cercam a história e a estética da arte teatral na Rússia. O exame  atento da interação orgânica entre as diferentes linguagens, que conformam o ato teatral, confere aos textos aqui presentes extremo interesse pelo alto grau de inovação investigativa na abordagem de questões cruciais para os estudos do fenômeno do teatro, tais como a arte do ator e a do encenador, a função do diretor, o papel do dramaturgo e do texto literário,  a criação do cenógrafo e do coreógrafo na estruturação do texto cênico."

Teatro Russo - Literatura e Espetáculo
Elena Vássina e Arlete Cavalieri
Ateliê Editorial
432 pag
R$59










Por fim, depois de surpreendentes 142 anos após o lançamento original da obra, os brasileiros poderão ler pela primeira vez em tradução direta do russo, Guerra e Paz (Война и миръ) de Tolstói (Cosac Naify). Esta edição encerra um capítulo na história editorial brasileira, iniciado há mais ou menos uma década, quando os clássicos da literatura russa foram pouco a pouco recebendo o tratamento merecido das nossas editoras. Rubens Figueiredo, já famoso por traduzir outros clássicos de Tolstói, demorou três anos para traduzir a obra que levou cinco exaustivos anos de pesquisa, escrita e reescrita de Tolstói (e sua esposa, claro). Antes tarde do que nunca.

Guerra e Paz
Liev Tolstói
Tradução de Rubens Figueiredo
Cosac Naify
R$198









Links adicionais

domingo, 27 de novembro de 2011

Lançamento de Contos de Sebastopol, de Tolstói

Contos de Sebastopol
Liev Tolstói
Tradução: Sonia Branco
Editora: Hedra
ISBN: 9788577152551
R$ 42,00
160 páginas

Liev Tolstói (1828-1910) nasceu em uma família da alta nobreza, ficou órfão ainda pequeno e recebeu de herança a propriedade Iásnaia Poliána, onde viveu a maior parte de sua vida, e que veio a se tornar fonte primordial para o desenvolvimento de suas idéias e ações. Sem completar nenhuma formação e entediado com a vida aristocrática, engajou-se, em 1851, nos exércitos do Cáucaso, seguindo depois para a Guerra da Crimeia. Nessa mesma década, escreveu suas primeiras obras, já obtendo boa recepção de crítica e público. Nos anos 60, dedicou-se a atividades pedagógicas fundando escola em suas terras, e iniciou-se o ciclo dos seus grandes romances. Nos anos 80 atravessou crise de ordem moral e religiosa que marcou sua produção literária. Em 1910, deixou suas terras para tornar-se peregrino, mas, dias depois, contraiu uma pneumonia, vindo a falecer na pequena estação ferroviária de Astápov. 

Contos de Sebastopol constitui-se por três relatos escritos em momentos distintos da Guerra da Crimeia. Tendo servido como segundo-tenente num regimento de artilharia durante a guerra, Tolstói reconta com minúcia episódios ocorridos durante o cerco de Sebastopol, ao mesmo tempo em que tece uma crítica contundente aos horrores da guerra. No entanto, seu veio narrativo, realizado com grande sabor, não se limita a simples descrições nem ao mero relato de fatos. Conhecedor atento da alma humana, Tolstói a explora com perspicácia, pintando com detalhes as reações dos soldados e oficiais diante das atrocidades vivenciadas e a luta por eles travada entre o desejo de escapar de situações-limite e o anseio de glória e condecorações. Os contos de Sebastopol, inéditos em português, constituem um livro extraordinário, não só pela habilidade e fineza com que o autor trata de situações vividas por ele mesmo, como pelo retrato que oferece ao leitor do desenvolvimento de um autor que irá se tornar um dos maiores expoentes da literatura universal. Tradução inédita em língua portuguesa, direta do russo.

Sonia Branco é professora de Literatura Russa na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com pesquisas e publicações na área de crítica literária russa do século XIX, e membro fundador da Sociedade Brasileira Dostoiévski e do Centro Brasileiro de Estudos Russos. Traduziu Os Cossacos de Tolstói, Águas de Primavera de Turguêniev e a peça A tempestade de Ostróvski, obras ainda não publicadas.
A Editora Hedra e a Livraria da Travessa convidam para o lançamento da edição no dia 29 de novembro, com palestra da tradutora Sonia Branco.

Serviço
Livraria da Travessa • Auditório
Shopping Leblon • Avenida Afrânio de Melo 
Franco, 290 • 2º piso
dia 29.11.2011  às 19h30
Rio de Janeiro/RJ

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Noites egípcias e outros contos

Nicolai Karamzin por Vasili Tropinin
A impressão que se tem da literatura russa em geral é uma só: romances densos, obras imensas como Guerra e Paz e Os Irmãos Karamazov, mas nem sempre foi assim. Até o início do século XIX, a Rússia era dominada pela poesia, e a prosa era tida como uma arte inferior. Com a modernização do país, veio também a reforma no alfabeto e a ideia de usar a escrita para propósitos literários. Entre 1740 e 1830, a Rússia só produziu poesia, com exceção dos contos de Nicolai Karamzin (Николай Карамзин), dono de uma prosa afrancesada, fluida, mas famoso mesmo pelos seus doze volumes de A História da Rússia.

Além de Karamzin, a única prosa conhecida da Rússia era a que vinha de fora do país, o mercado editorial começava a borbulhar com traduções de Goethe, Richardson e literatura francesa. Porém, em 1830, tudo mudaria graças ao, até então, poeta nacional, Alexander Púchkin, já famoso por seu romance em verso Eugênio Oneguin (Евгений Онегин), ao lançar a coleção de contos do falecido Belkin, onde ele se passa por mero editor das histórias deste autor. No mesmo ano, Gógol escrevia Tardes na fazenda próxima a Didanka (Вечера на хуторе близ Диканьки), coleção de contos com forte influência de Púchkin, e mais tarde formaria as raízes da prosa russa.

Dados estes fatos, chega às minhas mãos a edição de uma seleção um tanto peculiar da prosa de Púchkin: Noites Egípcias e Outros Contos, da Hedra. Peculiar, pois, além de alguns contos de Belkin já conhecidos, encontramos contos que dificilmente seriam lidos em qualquer outra língua que não o russo, como o conto que abre o livro, A casinha solitária na Ilha de Vassili (Уединённый домик на Васильевском). Texto considerado apócrifo, a história foi contada por Púchkin em uma festa na casa de Karamzin. Vladimir Titov, um dos convidados da festa, a redigiu e apresentou ao poeta para correções. É inegável a relação do poeta com a obra, dada a semelhança do conto com um de seus esboços, O demônio apaixonado, além dos inegáveis toques sobrenaturais já famosos em seus trabalhos, como em O cavaleiro de bronze.

Contos de Belkin
Os três próximos textos fazem parte da coleção do velho Belkin: Do editor, A nevasca e A senhorita camponesa. “Do editor” nada mais é do que um inventivo Púchkin falando sobre Belkin, o falecido contador de causos. “A nevasca” (Метель) faz sua terceira aparição em tradução direta no Brasil, a primeira sendo de Tatiana Belinky, na coletânea Salada Russa, e a segunda de Klara Gourianova, nos Contos de Belkin. Vale notar que a tradução mais conhecida, de Belinky, remove a epígrafe: um trecho da balada “Svetlana” de Vassili Jukóvski, que também serve como anúncio de que o conto nada mais é do que uma versão em prosa da balada, a mulher que se dirige ao próprio casamento em meio a uma nevasca mas que acaba em um "final feliz". Já  "A senhorita camponesa” (Барышня-крестьянка) é um Romeu e Julieta russo mais próximo da comédia. Como a própria tradutora, Cecília Rosas nota: "um conto permeado de referências literárias, a mais direta é às de Karamzin, em particular a Pobre Liza." A diferença é que a Liza de Karamzin é ingênua, sente-se culpada por enganar os pais, a Liza de Púchkin é só sorrisos ao enganar o hussardo.

Em História do povoado de Goriúkhino (История села Горюхина), Púchkin dá voz a Belkin mais uma vez para criar uma paródia d'A História da Rússia de Karamzin em menor escala, mostrando como um proprietário de terras pode acabar com um povoado com uma simples decisão: tirando o poder de seu povo. Púchkin mostra aquela velha certeza de que quanto mais fidalgo, mais mimado e quanto mais humilde o camponês, mais subserviente. Mas ao perceber que levando a idéia adiante os censores não teriam tanta piedade, "O povoado" encerra apenas como mais um conto inacabado entre vários, e não o forte romance histórico que poderia ser.
Cleópatra era tão lasciva que muitas vezes se prostituia, e tão bonita que muitos homens escolhiam pagar com a vida por uma noite com ela.
Púchkin por Kiprenski
Da frase do historiador romano Sextus Aurelius Victor, Púchkin extrai o conto que dá nome e também fecha a coletânea. Apesar do título, o que mais chama atenção aqui é a introdução, onde Púchkin discorre sobre a árdua vida de um poeta célebre, onde qualquer sofrimento é razão para um soneto e qualquer amante motivo de uma composição. O conto, também inacabado, acompanha Tchárski, poeta que se vê quase obrigado a ajudar um improvisador napolitano a ganhar algum dinheiro. A obra ficou famosa sob as acusações de indecoro e desrespeito ao ser recitada por uma jovem em um sarau em Perm. Tal fama não se deve ao escândalo em si, mas pelo artigo escrito por Dostoiévski em defesa da obra.

Ler Noites egípcias me remete à crítica de James Joyce a Púchkin, em que o autor questiona como alguém pode se entreter por tão simples histórias de damas e cavaleiros, e sugere ainda que as pessoas "naquele tempo" deviam ser simples, mas que hoje nem tanto. Segundo Joyce, Púchkin viveu como um garoto, escreveu como um garoto e morreu como um garoto. Se as descrições tão atuais de Púchkin aos problemas humanos não bastam para provar o valor de sua prosa, ou mesmo o humor aplicado aos fatos tão comuns não bastam pra provar o astuto narrador que Púchkin foi, o que provaria?



Autor: Aleksandr Púchkin
Editora: Hedra
Tradutor: Cecília Rosas
ISBN: 978-85-7715-17
Ano: 2010
Edição:
Páginas: 156

Isaac Babel

Por Aline Veras
O inventor do silêncio 
O início do século XX é lembrado na História pela série de guerras devastadoras que resultaram em assassinatos, crimes, tragédias e revoluções tecnológicas, propagandísticas e políticas. Foi o século do nazismo, fascismo, comunismo e outros “ismos”. Talvez o que menos conseguimos lembrar ou associar, é o quanto a política e a ideologia influenciaram a arte naquele período. E podem acreditar, a maioria dos artistas sofreram profundas transformações para se adaptar às novas exigências. Se houvesse resistência, o menor dos castigos impostos ao artista seria a convivência com o ostracismo. Se ele não tivesse essa “sorte”, ou era assassinado ou mandado para os confins da Terra para viver em isolamento, além de ser submetido a trabalhos forçados. Tudo isso para fazer com que ele repensasse seu posicionamento e colocasse o juízo no lugar. 

Um autPollock
A pesquisadora inglesa Frances Stonor Saunders conta, em seu livro Quem pagou a conta? A CIA na Guerra Fria da Cultura, muitas artimanhas promovidas pela agência de inteligência civil do governo dos Estados Unidos, a CIA, para financiar artistas e intelectuais com o objetivo de reduzir o espaço para qualquer arte de conteúdo social, ou seja, comunista. Um caso peculiar é o do hoje consagrado pintor Jackson Pollock que ficou conhecido por seu trabalho no movimento do expressionismo abstrato. O que muitos podem não saber é que Pollock foi um dos artistas beneficiados por essa missão. A CIA fez uma verdadeira promoção dos quadros de Pollock os colocando como a representação da democracia estadunidense em detrimento da arte soviética, de caráter realista. Se não fosse a massiça propaganda em prol da suposta liberdade trazida pela democracia ocidental encarnada na pintura de Pollock, como queria crer os agentes da CIA, será que o expressionismo abstrato de Pollock seria tão valorizado quanto é ainda na atualidade? Pollock seria considerado um gênio se não fosse por essa doutrinação ideológica? 

A realidade é que as ideologias do século passado fizeram com que a propaganda ganhasse dimensões gigantescas afetando bastante a cultura. A literatura, claro, não escapou desse domínio. Embora houvesse críticas e recusas em aderir aos movimentos, muitos escritores levantaram a bandeira de algumas dessas convicções políticas; um deles foi o russo Isaac Emmanuelovich Bábel (Исаа́к Эммануи́лович Ба́бель).

Escritor da barbárie humana
“Quando uma frase nasce, não é nem tão boa nem tão ruim. O segredo do seu sucesso está em um ponto crucial que mal se pode discernir. Devemos pegar a chave desse enigma gentilmente com os dedos, esquentando-a. E depois a chave deve dar uma volta, e não duas”
Boris Schnaiderman, o precursor da tradução direta de obras russas para a língua portuguesa, afirmou em seu ensaio No cerne da prosa que Bábel é o autor que melhor sintetiza os extremos daquele período da História da Rússia e do mundo: “Os contos de Isaac Bábel parecem-nos agora texto-paradigma do século XX. Com seu sabor acre de sangue e terra, com sua violência que nos deixa perplexos, eles estão realmente entre os escritos que expressaram melhor aquele século de horror e de mudança”. Ele acrescenta em sua produção literária, Guerra em Surdina, que a obra do escritor é “um adeus ao mundo sequencial e lógico do século XIX. O brutal, o descomunal, o inesperado, marcados pela desumanidade e incoerência, irrompem ali com estrépito e uma explosão de colorido”.

Babel
Apesar de muito pouco conhecido pelos leitores fora da Rússia, Bábel tinha importantes admiradores. Um deles é o escritor brasileiro Rubem Fonseca que escreveu a seguinte frase acerca do estilo literário do autor: “Bábel buscava padrões de excelência impossíveis de serem alcançados por qualquer outro artista (...) Por isso escreveu tão pouco, com exatidão, uma concisão esplendente.”

Nascido na cidade de Odessa, localizada na Ucrânia, no ano de 1894, Isaac Bábel era de família judia e por causa desse fato sofreu com o extremo preconceito em uma época em que o judaísmo era um estigma. A Rússia, assim como boa parte dos países da Europa, mantinha uma forte antipatia pelos judeus, que eram perseguidos sumariamente tanto no período tsarista quanto no pós-Revolução Russa. “Em 40 meninos, apenas dois judeus podiam ingressar na classe preparatória”, escreveu Bábel para seu amigo e mentor Maksim Górki sobre a política de quotas das escolas daquele período. Górki, aliás, foi quem publicou os primeiros textos de Babel nas revistas A Crônica (Летопись) e Vida Nova (Новая жизнь). 

De aliado a inimigo da Revolução 
“Eu sou um escritor russo. Se eu não vivesse com o povo russo, deixaria de escrever. Eu seria como um peixe fora da água.”
Quando eclodiu a Revolução comunista de 1917, Isaac Babel ficou ao lado dos bolcheviques (Большевик) e, em 1920, atuou como correspondente na guerra russo-polonesa. É a partir dessa experiência, que o escritor irá compor a série de 36 contos reunidos na coletânea O Exército de Cavalaria, que é considerado a sua obra-prima. Foi já durante esse período que Babel começou a se desencantar com o regime soviético. Assim ele escreveu em seu diário: “Todos dizem que estão lutando pela justiça e todos fazem pilhagens. (...) Assassinatos, é intolerável, baixezas e crimes... Carnificina. O comandante militar e eu cavalgamos por entre as fileiras, pedindo aos homens que não massacrem os prisioneiros.”

Quando Josef Stálin ascendeu ao poder do Estado soviético, seu homem de confiança, Andrei Jdanov, determinou a linha literária na qual os escritores deveria seguir dali por diante: a literatura soviética teria de ser a “expressão dos sucessos e êxitos do sistema socialista”. Durante o I Congresso de Escritores da União Soviética, realizado em 1934, Jdanov declarou aos artistas que a cultura seria usada como ferramenta na luta pela consolidação do comunismo. A nova política cultural foi extremamente violenta e anti-ocidental. Dos 600 delegados que participaram do Congresso, 200 foram mortos pelo regime nos anos seguintes.

Babel fichado
A exigência afetou diversos artistas, entre eles Isaac Babel que passou a produzir raros textos, pois não conseguia seguir os cânones literários oficiais. “Eu inventei um novo gênero. O gênero do silêncio”, afirmou. 
Babel foi preso em 1939, acusado de espionagem. Segundo a escritora Cynthia Ozick, após a prisão, agentes da NKVD, serviço secreto precursor da KGB, confiscaram todos os papeis de Bábel que depois foram destruídos. Entre eles, haveria contos inacabados, peças teatrais, roteiros de filmes e traduções. 
Depois de uma série de torturas e interrogações na prisão da Lubyanka, em Moscou, o escritor foi executado em 27 de janeiro de 1940 por um pelotão de fuzilamento. 
“Eu sou inocente. Nunca fui um espião. Nunca permiti nenhuma ação contra a União Soviética. Eu me acusei falsamente. Fui forçado a fazer acusações falsas contra mim e contra outros. Só peço uma coisa: deixem-me terminar a minha obra!”
Últimas palavras registradas no processo. 
Quando ainda vivia sob a proteção de Górki, Bábel foi muitas vezes ao exterior onde participava de congressos, seminários e visitava familiares, amigos e intelectuais. Após sua prisão e consequente morte, muitos se perguntaram por que o autor sempre voltava para a União Soviética, mesmo sabendo que corria perigo.

Yuri Annenkov, famoso retratista, pintor, gravador, cartunista, escritor e crítico, conhecia intimamente o modo de pensar político de Bábel. Em suas memórias, Annenkov escreveu sobre os muitos encontros que tivera com o autor em Paris e sobre as cartas que recebera dele até o início de 1930: “O modo de ser de Bábel mudara significativamente nos últimos meses. É verdade que ainda era muito brincalhão, mas os temas de suas conversas eram diferentes. Sua última estada na União Soviética e a crescente repressão a arte criativa através das exigências e das instruções do Estado, o desiludiram completamente. Era intolerável para ele escrever dentro da estrutura da ‘mentalidade de caserna da ideologia soviética’, e, contudo, ele não sabia como poderia viver de outra forma”. 

Características literárias 
Bábel era um “despreocupado, inquieto, mulherengo, quase um vagabundo, um cavalariano, um propagandista, pai de três crianças engendradas em três mulheres diferentes, sendo que somente uma delas é legalmente sua esposa.” Foi assim que a escritora Cynthia Ozick definiu a personalidade do autor em um ensaio dedicado a ele. Segundo Ozick, as características literárias de Bábel residiam em sua própria maneira de viver. E como ele gostava de viver! Bábel parecia um garoto mirrado e míope que tinha um apetite insaciável por adquirir experiências. Queria conhecer o mundo, as pessoas, a natureza do ser humano com seus exemplares os mais diversos e controversos.
“A amplidão e o objetivo de sua visão social permitiu-lhe ver o mundo pelos olhos dos camponeses, soldados, padres, rabinos, crianças, artistas, atores, mulheres de todas as classes. Tornou-se amigo de prostitutas, cocheiros, jóqueis; sabia o que era ficar sem um centavo, viver no limite da pobreza e marginalizado. Foi ao mesmo tempo o poeta da cidade e um lírico da vida rural. (...) Vive de uma maneira robusta, inquisitiva e faminta: seu apetite pelo que é imprevisivelmente humano é gargantuesco, inclusivo, excêntrico. Ele é cheio de truques, malandro, irônico, um amante instável, um impostor imprudente – saindo dessas centenas de fogosos ‘eus’, verdades insidiosas arrastam-se para fora, uma por uma, em um rosto, na cor do céu, em uma poça de lama, em uma palavra. É como se ele fosse uma membrana irritável, sujeita a cada vibração das criaturas.”
Lionel Trilling, crítico literário que foi um dos primeiros a escrever seriamente sobre Bábel em inglês, destaca a concisão do autor: 
“a busca da palavra (le mot juste) ou frase que produzirá seu efeito com uma rapidez implacável, seu extraordinário poder de distorção significativa, o esboço rápido, o notável deslocamento do interesse, a mudança de ênfase e, de maneira geral, sua maneira de apresentar os fatos numa perspectiva diversa daquela em que aparecem na ‘cópia fiel e autenticada’”. 
A filha legítima do escritor, Nathalie Bábel, quase não tinha lembranças do pai quando ele foi levado pela polícia soviética. Apenas tem recordações dos anos de sofrimento pelo qual passou por ter crescido sem a presença dele e também por não entender os motivos que fizeram Bábel escolher a permanência em seu país natal. Já adulta, pôde pesquisar o trabalho paterno e procurar informações acerca de sua morte nos arquivos da NKVD. No prefácio do livro Isaac Bábel: Contos Escolhidos, assim ela sustenta a opinião que formulou sobre o estilo literário do pai: 
“A obra de Babel desafia as classificações. Do meu ponto de vista, para simplificar, a justaposição de coisas compatíveis e coisas incompatíveis mantém a prosa de Babel em um estado de tensão constante e lhe dá o seu caráter original. Abordar Babel esperando ver em sua obra a literatura russa tradicional, pode levar a um desapontamento, ou a um sentimento de descoberta.”
Assim são as obras de Isaac Bábel: precisas, breves e cheias de violência, piedade, comédia e iluminação. Às vezes trazem a brutalidade mais cruel, às vezes a vivacidade alegre de um pôr-do-sol no campo.

Bibliografia
O Exército de Cavalaria, tradução de Aurora Bernardini e Homero Freitas de Andrade
Maria – Uma peça e cinco histórias, tradução de Aurora Fornoni Bernardini, Boris Schnaiderman e Homero Freitas de Andrade

sábado, 19 de novembro de 2011

O romancista tradutor

Rubens Figueiredo, o autor nacional mais premiado deste ano, lança a primeira tradução brasileira de Guerra e paz, de Tolstói

Luís Antônio Giron para a revista Época

Rubens Figueiredo

As funções do ficcionista e do tradutor parecem se excluir. Um se dedica a suas criações e não tem tempo para pensar em outros autores, quanto mais traduzi-los. O outro se ocupa em passar textos alheios para o idioma vernáculo, e sua assinatura é ofuscada pela dos autores. Em Rubens Figueiredo, ambos se fundem na mesma pessoa. Ele escreve ficção e traduz com igual entusiasmo. Esse trânsito dá a seu trabalho uma qualidade peculiar. Seus contos e romances – oito em 30 anos de carreira – falam de memória e cotidiano, com doses de sarcasmo e crítica. As 70 traduções que fez do inglês e nove do russo exibem uma fluência difícil de encontrar numa área cada vez mais entregue a amadores e arrivistas. 

Neste ano, Figueiredo é autor de duas façanhas. Tornou-se o escritor mais premiado do Brasil ao ganhar os prestigiosos – e bem pagos – prêmios São Paulo de Literatura (R$ 200 mil) e Portugal Telecom (R$ 100 mil) por seu último romance, Passageiro do fim do dia (Companhia das Letras, 200 páginas, R$ 40), de 2010. A segunda façanha está em lançar nesta semana a tradução do romance Guerra e paz, de Liev Tolstói (CosacNaify, 2.536 páginas em dois volumes, R$ 198). Trata-se da primeira tradução brasileira feita diretamente do russo da obra-prima de Tolstói (1828-1910), publicada 142 anos atrás.

Mesmo assim, ele não se acha consagrado. “Fiquei surpreso com os elogios”, diz. “Mas sigo no meu canto, fazendo o que sempre fiz.” Aos 55 anos, Rubens é um carioca pacato, casado há 20 com a escritora Leni Cordeiro. Tem dois enteados e vive entre o Rio de Janeiro e a cidade serrana de Teresópolis. Na serra, gosta de escrever. Lá terminou Guerra e paz e seu último romance.

Tolstói

Sua produção não o impede – nem o poupa – de trabalhar. Professor do ensino médio há mais de 30 anos, ele dá aulas de português no curso noturno e no supletivo do colégio estadual Manoel Cícero, na Gávea. Ele se formou e fez mestrado em português e russo na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Começou nos anos 1990 a traduzir ficção em língua inglesa, livros de Paul Auster e Susan Sontag. Há dez anos, passou aos clássicos russos: Pais e filhos, de Ivan Turguêniev, contos de Anton Tchékhov e dois romances de Tolstói: Anna Kariênina e Ressurreição, entre outros. “Cheguei a Tolstói a pedido dos editores”, diz. “Mas ele acabou por marcar minha vida.” 

Nada disso havia no início, quando fazia humor – “Talento de família”, diz (é irmão de Reinaldo Figueiredo, redator de humor da TV Globo). Seus três primeiros livros – O mistério da samambaia bailarina (1986), Essa maldita farinha (1987) e A festa do milênio (1990) – eram cômicos. “A vida me parecia leve na juventude”, diz. “Curiosamente, o humor foi diminuindo de livro para livro.”

Guerra e Paz
Passageiro do fim do dia tem um tom sério: relata um dia na vida de Pedro – quase homônimo de um dos protagonistas de Guerra e paz, Pierre. Pedro é pobre. Num ônibus, dirigindo-se à casa da namorada na favela, ele pensa na vida. Ao saltar, já não é o mesmo, pois se dá conta da opressão e da finitude, as grandes questões de Tolstói. A influência não é casual. Figueiredo está às voltas com ele há sete anos, três com Guerra e paz. “Tolstói me impressiona pela consciência crítica”, diz. “Assim, ele questiona o caráter científico da história e demonstra a força do acaso. Despreza os heróis. Nivela generais, camponeses, animais e plantas.”

A transformação do pobre Pedro lembra a do nobre Pierre. Ele também amadurece, só que ao longo de 20 anos. De 1805 a 1825, esse corpulento filho ilegítimo de um conde envolve-se em orgias, herda a fortuna do pai, casa-se com a bela princesa Hélène, separa-se ao descobrir que ela é “depravada”, entra na Maçonaria e, apesar de pacifista, luta na guerra. Casa-se com a plácida Natasha e se estabelece. Nesse meio-tempo, as tropas napoleônicas invadem a Rússia e são derrotadas pelo exército do czar Alexandre I em 1812. A conquista da paz interior de Pierre corresponde à da paz nacional. Escrito entre 1863 e 1869, Guerra e paz faz um painel histórico, com 500 personagens, quase todos reais. 
Passageiro do Fim do Dia

Rubens procurou transferir ao português as inovações, a sintaxe e o léxico do romance. Segundo ele, Tolstói renovou o romance não só criando o épico moderno ao articular a vida íntima dos membros de cinco famílias nobres (fictícias) às campanhas militares do início do século XIX. “Ele registrou a fala de classes distintas. Há passagens intraduzíveis, como os diálogos dos camponeses e dos soldados. Tentei buscar correspondências coloquiais”, diz. Outra dificuldade foi manter o ritmo da narrativa, cheia de orações longas e interrupções, além do tom crítico. “Tolstói queria ser um bárbaro entre civilizados. Questionava a dominação cultural da Europa ocidental sobre o resto do mundo – encarnada em Napoleão, a figura mais saliente e atacada do livro.” O resultado é um texto nítido, sem frases intrincadas. Se em ficção ele é conciso, em tradução dá espaço à retórica de Tolstói. 

A professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília, especialista em literatura brasileira atual, afirma que a obra de Figueiredo se distingue da ficção urbana atual pela densidade. “Ele aborda cenários pobres, mas seus personagens não são violentos. Eles refletem, e isso cria estranhamento. Seu estilo é amarrado, o que a gente nota em suas traduções.” Para o tradutor do russo Paulo Bezerra, o que conta não é Figueiredo ser ficcionista, mas conhecer a língua e a cultura russas. “O ficcionista cria sua ficção, mas quando traduz se coloca na mesma condição do ‘não ficcionista’: opera com ficção alheia e desaparece como ficcionista. E isso Figueiredo faz bem.”


Para Rubens, não há segredo em ser a um tempo tradutor e romancista. “Tanto um como outro se expressam numa língua. O objetivo do tradutor é recriar no vernáculo um texto de outro idioma; o do ficcionista, exprimir sua experiência.” Por isso, ele traduz com disciplina, mas faz ficção só quando tem o que dizer. Enquanto não lhe vem à cabeça uma trama, dá aulas e traduz. Planeja traduzir as memórias e os contos de Tolstói. “Não me forço. Escrever é uma necessidade que nasce da vida diária. Tanto fazer ficção como traduzir não envolvem apenas palavras. É bem mais que isso.”


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Nicolai Leskov


Busca pela alma do povo russo
Muitos artistas sofreram com a maldição do não-reconhecimento. Só na pintura, podemos citar exemplos desde Van Gogh à Modigliani. Na música erudita, há o caso famoso do francês Claude Debussy que viu suas obras serem massacradas pelos críticos da época. Na literatura então... nem se fala. Kafka, Stendhal, Lima Barreto e tantos outros lutaram para conquistar um espaço que só foi alcançado anos após suas mortes.

Explicações para o fenômeno são inúmeras: incompreensões, polêmicas, ideologias, questões sociais e políticas... Como disse o filósofo espanhol Ortega y Gasset: "O homem é ele próprio e sua circunstância". Ou seja, não basta ter talento, o artista deve contar também com o contexto da época que, muitas vezes, definirá seu destino. Pois muito bem. E o que me dizem quando o talento não é agraciado mesmo após a morte? Nesse caso, a morte só traz mais esquecimento.

Essa longa introdução tem um objetivo, calma. Quero fazer jus a um autor que até os dias atuais está desconhecido das prateleiras, da imaginação, das lembranças, da admiração e das mãos dos leitores. Isso mesmo, quem conhecesse sua obra, muito se admiraria da sua capacidade sem igual de narrar a grande alma russa.

Narração artesanal 
Nicolai Semyonovich Leskov (Николай Семёнович Лесков) foi “O” narrador. Narrador do povo de todas as classes, todas as religiões, modos de falar, de se comportar, de viver. Conheceu  e conviveu com toda sorte de pessoas: soldados, criadas, camponeses, artesãos, comerciantes, nobres decadentes, pequeno-burgueses, fanáticos religiosos e excêntricos. “Eu conhecia a vida do povo nos mínimos detalhes e a compreendia nos mais ínfimos matizes”, afirmou o escritor que foi contemporâneo da “era de ouro” da literatura russa. Viveu à sombra de Dostoievski, Turguêniev, Tchekhov e Tolstoi que, aliás, foi um dos únicos que conseguiu enxergar a riqueza literária de Leskov.
“É estranho que Dostoievski seja tão lido... Em compensação, não compreendo por que não se lê Leskov. Ele é um escritor fiel à verdade”.
Leskov por Valentin Serov, 1894
Nascido em 1831 no povoado de Gorokhovo, em Oriol, às margens do rio Volga, em uma família de membros do clero, começou a escreveu apenas aos 29 anos quando resolveu colocar no papel todas as lendas da velha Rússia que ouvia oralmente dos mais velhos. Marco importante para a sua produção literária foi quando começou a trabalhar como ajudante de administrador de fazendas e viajou por todas as províncias da Rússia, conhecendo lugares das mais diferentes espécies e adquirindo uma experiência que estará presente em toda a sua obra. 

Essa empatia que Leskov sentia pelo povo russo é justificada pelo próprio autor: “Precisamos simplesmente conhecer a vida do povo como a própria vida (...) não estudá-lo, mas vivê-lo”. Por causa desse laço de forte intimidade, o escritor criou um estilo muito particular de narração: o falar natural dos personagens. Paulo Bezerra, tradutor de Leskov, Dostoievski e outros autores, diz que essa linguagem marcada pelo coloquial mostra o quanto o escritor foi conhecedor da vida e dos costumes russos. Leskov “recusa (...) uma observância dogmática e mecânica das normas da língua e da chamada boa escrita”, o que o aproximava de Dostoievski. Em “Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk”, por exemplo, erros de sintaxe e declinação foram usados por Leskov para mostrar o baixo nível de escolaridade dos personagens justamente para não estilizar as falas e tornar o relato o mais verossímil possível.  Leskov considerava a narrativa como uma arte artesanal, um ofício manual. “A literatura”, diz ele em uma carta, “não é para mim uma arte, mas um trabalho manual”. 

O mais importante biógrafo de Fiódor Dostoievski, Joseph Frank, traça o seguinte perfil de Leskov no livro “Pelo Prisma Russo”: 
"Leskov era uma personalidade orgulhosa, apaixonada e frequentemente irascível; no decorrer de sua vida ele conseguiu indispor-se com quase todo mundo que conhecia, como também com todas as tendências e movimentos correntes na literatura russa. Isso também nos diz algo sobre sua impetuosa independência, sua recusa a reverenciar os lemas ideológicos do momento. Sua briga mais conhecida, causa do virtual ostracismo que os radicais lhe impuseram durante a maior parte de sua vida, envolvia os famosos incêndios de São Petersburgo, de 1862, que coincidiram aproximadamente com a circulação das proclamações sanguinárias do Rússia Jovem, que proclamavam pelo extermínio da família real e de todos os seus partidários. A maioria acreditava que os radicais tinham começado o incêndio, e o populacho suspeitava de que a população estudantil em geral fosse simpática aos supostos incendiários. Leskov, com a intenção de proteger os estudantes, publicou um artigo onde pedia à polícia que, se houvesse qualquer prova de incêndio culposo, nomeasse os culpados para que a suspeita pudesse ser retirada das costas dos inocentes. À primeira vista, nada pareceria mais inofensivo do que tal pedido, mas o fato de Leskov ter dado algum crédito à hipótese de incêndio culposo e ter, aparentemente, apelado à polícia contra os radicais, foi o suficiente para torná-lo um homem marcado". 

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Um final Tchekhov

"Na literatura, exitem os finais de Tchekhov e os de Shakespeare. Nos de Shakespeare, as pessoas terminam mortas. Nos de Tchekhov, deprimidas, amarguradas, mas vivas. Espero que Israel tenha um final de Tchekhov". 
- Amós Oz 

domingo, 6 de novembro de 2011

Ivan Turguêniev

Um pacífico causador de conflitos 
“Veja o que seus niilistas estão fazendo! Estão queimando São Petersburgo!”
Ivan Turguêniev
Uma nova geração de jovens russos nascia e florescia esperando sempre pelo pior. Que suas vidas  entrassem em colapso assim como a sociedade, o governo, as relações pessoais, o sistema, a organização do que todos aprenderam a se acostumar e julgavam ser o certo.

Essa crise de caráter existencial começou a tomar proporções inimagináveis. Incêndios criminosos e tentativas de assassinato tomavam conta da então capital russa, São Petersburgo. E todos esses distúrbios recaíram sobre um único individuo. Os dedos começaram a ser apontados para Ivan Turguêniev e seu Ievguêni Vassíliev Bazárov, rapaz inteligente, cheio de virtudes, mas que tinha o grande pecado ser um perturbador social, ou seja, um niilista; o nada. Rapaz que nem mesmo Turguêniev sabia como definir os seus sentimentos por ele: se eram de amor ou de repulsa.

Escrita da Rússia moderna

O escritor Ivan Turguêniev caminhava tranquilamente nas ruas da cidade, depois de retornar de uma viagem à Europa, quando, para sua surpresa, o grito de acusação, citado no começo do texto, proferido por um completo desconhecido, lhe atingiu de cheio.

No prefácio da edição traduzida por Rubens Figueiredo do livro Pais e Filhos (Отцы и дети), escrito por Turguêniev, Rubens explica que a narrativa do jovem Bazárov foi escrita em uma época extremamente importante e significativa para História da Rússia. Entre os anos de 1860 e 1862, o tsar Nicolau I decretou o fim da escravidão no país. Ao contrário do que ocorreu nas Américas, por exemplo, em que negros da África eram transportados em navios para trabalhar nas fazendas de café e algodão, os escravos da Rússia eram camponeses nascidos daquele mesmo chão em que eram obrigados a trabalhar. Quem já leu o célebre livro de Nikolai Gógol vai lembrar-se do termo “almas” (души), pois era dessa forma que os servos eram chamados: as almas dos proprietários de terra.

2ª edição de Pais e Filhos
Nesse período, a Rússia ainda dependia basicamente de uma economia considerada até então atrasada, baseada na agricultura e no feudalismo. Opositores dessa organização social, os jovens passaram a exigir grandes reformas, o que provocou a abertura de um abismo entre gerações. Os pais, nacionalistas convictos, lutavam para que as tradições antigas permanecessem; e os filhos, ao contrário, enxergavam uma inferiorização da Rússia em comparação aos costumes do Ocidente europeu. 

O personagem principal de Pais e Filhos, Bazárov, é a caricatura daquela juventude que ardia por mudanças que os aproximassem do progresso do mundo civilizado. Nas palavras de Bazárov, o niilista “é uma pessoa que não se curva diante de nenhuma autoridade, que não admite nenhum princípio sem provas”. Nesse trecho, podemos perceber a influência da corrente positivista que a tudo queria racionalizar. Exaltava os fatos e a prática, em detrimento às ideias e teorias. Orientação científica que já havia se consolidado entre os ocidentais.  

Além da riqueza estilística e literária, o mérito que Turguêniev obteve nesta que foi sua quinta obra se deve, principalmente, ao conseguir identificar e caracterizar as profundas transformações que marcariam a sociedade russa daqueles anos em diante. A polêmica que surgiu antes e durante a publicação da obra, foi a maior de que se tem notícia na literatura russa porque, de fato, se tratava de um tema novo e perigoso.

Repercussão na literatura 

O filósofo e escritor alemão Friedrich Nietzsche ficou conhecido como o autêntico niilista. Nietzsche escreveu exaustivamente sobre a decadência do homem, de ressentimentos e culpas diante de sua própria condição. No entanto, é interessante e importante notarmos que o filósofo tinha uma grande ligação com a literatura russa não por causa de Ivan Turguêniev e Bazárov, mas sim, com outro nome de peso da literatura, Fiódor Dostoiévski e seu “Memórias do Subsolo”. Até mesmo Maxim Górki observou que o cerne da filosofia de Nietzsche está nessa obra.  

“Gigante doce”

"Tourguéneff, le doux géant, l'aimable barbare, avec ses blancs cheveux lui tombant dans les yeux, le pli profond qui creuse son front d'une tempe à l'autre, pareille à un sillon de charrue, avec son parler enfantin, dès la soupe, nous charme, nous enguirlande, selon l'expression russe, par ce mélange de naïveté et de finesse : la séduction de la race slave, - séduction relevée chez lui par l'originalité d'un esprit personnel et par un savoir immense et cosmopolite." 
- Edmond de GoncourtJournal des Goncourt. Mémoires de la vie littéraire

Ivan Sergeievitch Turguêniev (Иван Сергеевич Тургенев) nasceu na cidade de Orel, atual Ucrânia, em uma família de ricos proprietários de terra, em 1818. Era descrito como um homem de índole pacífica e original e levemente suscetível a críticas. Uma de suas características literárias é que ele mesmo afirmava basear-se em pessoas que conhecia e convivia para criar seus personagens. Segundo o próprio autor, ele nunca criou um personagem sem ter se inspirado em uma determinada pessoa. 

Grande amigo do francês Gustave Flaubert, autor de “Madame Bovary”, e de Liev Tolstói, a quem exercia certa influência. Após escrever uma carta endereçada ao compatriota, pedindo-lhe que voltasse para a literatura, Tolstói ainda escreveria as novelas “Sonata a Kreutzer” e “A morte de Ivan Ilitch”. 

A relação entre Turguêniev e Tolstói nem sempre foi amistosa. Tolstói chegou a escrever em seu diário o que considerava do colega: “Turguêniev é um tédio”. Por volta de 1861, a animosidade entre os dois ficou mais acentuada quando um incidente levou os dois a trocarem insultos entre correpondências ao que Tolstói desafiou Turguêniev para um duelo. Este, por muitas vezes chamado de covarde, logo se desculpou com o escritor e ambos ficaram sem se falar por 17 anos. 

A qualidade de seu trabalho como escritor lhe valeu o reconhecimento e a fama que o colocavam lado a lado de Dostoiévski, com quem não mantinha boas relações por razões tanto religiosas quanto políticas: Turguêniev, muito mais europeu do que russo e sem a mínima pretensão de escrever sobre temas religiosos. Dostoiévski, defensor da cultura eslava e sempre questionando a moral religiosa. Dostoiévski além de utilizar um trecho do poema A Flor (Цветок) de Turguêniev como epígrafe de Noites Brancas, também imortalizaria o autor em seu romance Os Demônios, como o bajulador Karmazinov.

Quando morreu, em 1883, seu corpo foi recebido por uma massa de pessoas e enterrado em São Petersburgo. Além de “Pais e Filhos”, Turguêniev escreveu outras narrativas primorosas da literatura universal como “Notas de um caçador”, seu primeiro livro ainda sem tradução direta no Brasil; “Ássia”; e “Primeiro amor”.

Este post marca a estréia da jornalista Aline Veras no blog.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

LERUSS

Arlete Cavaliere
Rachel Di Giuseppe, estudante da graduação em Letras pela Universidade de São Paulo, especializando-se em língua e literatura russa, em entrevista a Arlete Orlando Cavaliere, responsável pela concretização da criação do LERUSS na USP.

O LERUSS- Laboratório de Estudos Russos USP-RUSSKIY MIR define-se como um laboratório de estudos criado junto ao Curso de graduação de língua e literatura russa e do Programa de pós-graduação de literatura e cultura russa do Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. A meta principal do LERUSS é desenvolver de forma sistemática ações multidisciplinares de pesquisa, ensino e extensão no campo dos estudos russos, de forma a integrar também cursos de graduação, programas de pós-graduação e de pós-doutorado de nossos diversos departamentos.

A criação do LERUSS é fruto de um convênio assinado em abril de 2010, sob minha coordenação, entre a Reitoria, a FFLCH e a Fundação Russkiy Mir, órgão estatal russo, amparado pelo Ministério da Educação, Ministério da Cultura e Ministério das Relações Exteriores da Rússia. A proposta do convênio é propiciar condições operacionais necessárias para buscar apoio institucional e financeiro junto à Fundação Russkiy Mir para a aquisição de materiais visuais, bibliográficos, equipamentos técnicos, recursos de informática, manuais didáticos, obras literárias, teóricas e de crítica, em papel ou em suportes eletrônicos de informação, para viabilizar o pleno funcionamento do LERUSS.

Os principais objetivos do LERUSS são:
a. promover o estudo da língua, da literatura, da cultura e da arte russas no âmbito da USP e de outras universidades brasileiras e estrangeiras;
b. auxiliar docentes, estudantes de graduação e pós-graduação e demais interessados na divulgação, aprendizado e aprofundamento de conhecimentos referentes à língua, literatura, cultura e artes russas;
c. fomentar,organizar, divulgar pesquisas de docentes, estudantes e estudiosos neste campo de conhecimento;
d. organizar e promover conferências, colóquios, congressos e seminários acadêmicos nacionais e internacionais;
e. promover e organizar mostras de cinema, exposições de artes plásticas, fotografias, oficinas literárias e teatrais e outras atividades artísticas e culturais;
f. manter intercâmbio com instituições congêneres no Brasil e no exterior

Tendo em vista os objetivos acima elencados, o LERUSS prevê em seu planejamento de atividades de curto prazo realizar, já em novembro deste ano, um seminário acadêmico internacional, intitulado Artes Russas: arquitetura e cinema, para o qual serão convidados renomados especialistas russos. Durante o seminário está também prevista a projeção de materiais visuais inéditos entre nós. Certamente, esta será uma primeira atividade das muitas que o LERUSS pretende programar para o próximo ano, sempre com vistas a ações integradas de pesquisa, ensino e extensão.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Requiem, de Anna Akhmatova

Requiem (Реквием), obra mais conhecida da poetisa Anna Akhmatova (Анна Ахматова), escrita entre 1935 e 1940, retrata o terror do regime stalinista e seus dias à porta da cadeia de Leningrado à espera de Lev Gumiliov (Лев Гумилёв), seu filho com o também poeta Nicolai Gumiliov (Николай Гумилёв), morto em 1921 por conspiração. A tradução aqui é de Lauro Machado Coelho, publicada pela editora L&PM, enquanto o original pode ser lido aqui.


"You cannot leave your mother an orphan."
- Joyce

Não, não foi sob um céu estrangeiro,
nem ao abrigo de asas estrangeiras –
eu estava bem no meio de meu povo,
lá onde o meu povo infelizmente estava.

(1961)


NO LUGAR DE UM PREFÁCIO

“Nos anos terríveis da Iéjovshtchina, passei dezessete meses fazendo fila diante das prisões de Leningrado. Um dia, alguém me ‘reconheceu’. Aí, uma mulher de lábios lívidos que, naturalmente, jamais ouvira falar meu nome, saiu daquele torpor em que sempre ficávamos e, falando pertinho de meu ouvido (ali todas nós só falávamos sussurrando), me perguntou:

– E isso, a senhora pode descrever?

E eu respondi:

– Posso.

Aí, uma coisa parecida com um sorriso surgiu naquilo que, um dia, tinha sido o seu rosto.”

(Leningrado, 1º de abril de 1957)


DEDICATÓRIA

Diante dessa dor, as montanhas se inclinam
e o grande rio deixa de correr.
Mas os muros das prisões são poderosos
e, por trás deles, estão as “tocas dos condenados”
e a saudade mortal.
É para os outros que a brisa fresca sopra,
é para os outros que o pôr-do-sol se enternece –
mas nada sabemos disso: somos as que, por toda parte,
só ouvem o odioso ranger das chaves
e o passo pesado dos soldados.
Levantávamo-nos como para o culto da madrugada,
arrastávamo-nos por esta capital selvagem,
para nos encontrarmos lá, mais inertes do que os mortos,
o sol cada vez mais baixo, o Neva mais nevoento,
enquanto a esperança cantava bem ao longe…
O veredicto… e as lágrimas de súbito brotam.
E ei-la separada do mundo inteiro
como se de seu coração a vida se arrancasse,
como se com um soco a derrubassem.
E, no entanto, ela ainda anda… cambaleando… sozinha…
Onde estão, agora, as companheiras de infortúnio
desses meus dois anos de terror?
O que estarão vendo, agora, na neblina siberiana?
A elas eu mando a minha última saudação.

(Março de 1940)


PRÓLOGO

Houve um tempo em que só sorriam
os mortos, felizes em seu repouso.
E como um apêndice supérfluo, balançava
Leningrado, pendurada às suas prisões.
E quando, enlouquecidos pelo sofrimento,
os regimentos de condenados iam embora,
para eles as locomotivas cantavam
sua aguda canção de despedida.
As estrelas da morte pairavam sobre nós
e a Rússia inocente torcia-se de dor
sob as botas ensangüentadas
e os pneus das Marias Pretas.


I

Levaram-te embora ao amanhecer.
Atrás de ti, como quem acompanha um carro fúnebre, eu segui.
No quarto às escuras, as crianças soluçavam
e a vela gotejava diante do ícone.
Teus lábios estavam gelados como uma medalhinha.
Do suor mortal em tua fronte nunca me esquecerei.
Como as viúvas dos Striéltsi, eu também
irei gritar diante das torres do Kremlim.

(1935)

sábado, 15 de outubro de 2011

"Lermontov", de Nikolai Burliaiev

Nesta data, em 1814, nascia em Moscou o poeta Mikhail Lermontov. Filho do capitão Yuri Lermontov e da então adolescente Maria Arsenieva.

Em comemoração a data, escolhi "Lermontov", filme produzido em 1986 pelo ator e diretor Nikolai Burliaiev, famoso por suas colaborações com Andrei Tarkovski em "A Infãncia de Ivan" e "Andrei Rublev" além da minisérie "Pequenas Tragédias", baseada na obra de Púchkin.


sábado, 1 de outubro de 2011

Folha Ilustrada: O Duplo de Dostoiévski

Dostoiévski antecipa invenções do século 20 em "O Duplo"


O tradutor e ensaísta Paulo Bezerra tem se dedicado nos últimos anos a uma laboriosa tradução das obras do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Com o lançamento da novela "O Duplo" ("Dvoinik"), a importante coleção soma agora 14 volumes. Aos 24 anos, Dostoiévski caiu nas graças da crítica com seu livro de estreia, "Gente Pobre" (1846). A mesma crítica, porém, recebeu com estranhamento e frieza "O Duplo" (também de 1846), considerado "enfadonho e verboso", como descreveu o próprio autor em sua correspondência, além de um pastiche de "O Diário de Um Louco", de Gógol (1809-1852).  A posteridade tratou de reavaliar o livro, hoje tido como uma das obras centrais do escritor. "Parece-me que foi a melhor coisa que ele escreveu", afirmou Vladimir Nabokov (1899-1977), ressaltando os detalhes "quase joyceanos" do livro. 

ASSOMBROSA INVENÇÃO
"O Duplo" é uma assombrosa invenção literária feita a partir de quase nada. Seu protagonista, Golyádkin, é um funcionário público de baixo escalão, mais um daqueles pequenos homens que povoam as obras do escritor. Afetado por algum transtorno psicológico, ele passa a digladiar-se com um duplo de si, um Golyádkin segundo, que vem perturbar sua vida e seu trabalho. Dostoiévski constrói, pioneiramente, uma narrativa que vai embaralhando o que é "real" e o que é alucinação, até o ponto de as flutuações da consciência (e da demência) do personagem se imporem à objetividade da escrita realista. "Dostoiévski realizou uma espécie de revolução coperniciana em pequenas proporções, convertendo em momento da autodefinição do herói o que era definição sólida e conclusiva do autor", analisou o teórico russo Mikhail Bakhtin (1895-1975). O leitor penetra na obra como se estivesse numa típica novela do Oitocentos russo, esbarra com o que parece ser uma história fantástica e acaba imerso numa vigorosa sátira social (e política) e numa aventura protovanguardista, que antecipa experiências literárias do século 20.

O Duplo
Autor: Fiódor Dostoiévski
Editora 34
Tradução: Paulo Bezerra
Quanto: R$ 39 (240 págs.)
Aavaliação: ótimo

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Herói de seu tempo: Mikhail Lermontov

Auto-retrato
Mikhail Lermontov (Михаил Лермонтов, 1814-1841), o "poeta do Cáucaso", chamou a atenção da Rússia com "A Morte do Poeta" (Смерть Поэта), poema escrito em 1837, ocasião da morte de Alexander Púchkin.

Pelos anos seguintes, foi tido como o poeta nacional, uma espécie de substituto de Púchkin, até que em 1841 teve o mesmo fim de seu predecessor: morto em um duelo por um companheiro militar que se ofendeu com uma de suas muitas piadas de mau gosto.

Apesar de seu corpo ter sido deixado ao tempo, tamanha a antipatia de seus conhecidos, Lermontov é lembrado até hoje como um dos maiores poetas da Rússia. Suas maiores obras são o poema "O Demônio" (Демон) e o romance "O Herói de Nosso Tempo" (Герой нашего времени), traduzido no Brasil por Paulo Bezerra.

"Ninguém escreveu na Rússia tão correta e agradável prosa"Gogol
"Eu não conheço uma linguagem melhor do que aquela usada por Lermontov" - Tchekhov 
"Que força tinha este homem! Podia fazer de tudo! Ele iniciou direto como uma força poderosa!" - Tolstói

O Rochedo

A nuvem de ouro dorme a noite inteira
no seio do gigântico rochedo.
Pela manhã, levanta-se bem cedo,
e descuidada vai-se pelos céus, ligeira.

Mas lá restou de orvalho um breve traço
nas rugas do penedo solitário.
E é como se ele ficara multivário
chorando suavemente ante o vazio espaço.
Утес (1841)

Ночевала тучка золотая
На груди утеса-великана;
Утром в путь она умчалась рано,
По лазури весело играя.

Но остался влажный след в морщине
Старого утеса. Одиноко
Он стоит, задумался глубоко,
И тихонько плачет он в пустыне.




Nuvens

Ó nuvens pelos céus que eternamente andais!
Longo colar de pérolas na estepe azul,
exiladas como eu, correndo rumo ao sul,
longe do caro norte que, como eu, deixais!

Que vos impele assim? Uma ordem de Destino?
Oculto mal secreto? Ou mal que se conhece?
Acaso carregais o crime que envilece?
Ou só de amigos vis o torpe desatino?

Ali não: fugis cansadas da maninha terra,
e estranhas a paixões e o sofrimento estranhas
eternas pervagais as frígidas entranhas.
E não sabeis, sem pátria, a dor que o exílio encerra.


Тучи (1840)

Тучки небесные, вечные странники!
Степью лазурною, цепью жемчужною
Мчитесь вы, будто как я же, изгнанники
С милого севера в сторону южную.



Кто же вас гонит: судьбы ли решение?
Зависть ли тайная? злоба ль открытая?
Или на вас тяготит преступление?
Или друзей клевета ядовитая?



Нет, вам наскучили нивы бесплодные...
Чужды вам страсти и чужды страдания;
Вечно холодные, вечно свободные,
Нет у вас родины, нет вам изгнания.


Jorge de Sena (1919-1978), poeta, e tradutor português








Post realizado em conjunto com o blog Falando Russo.