segunda-feira, 7 de junho de 2010

150 anos de Tchekhov, o médico que amava os palcos

Encontro em SP rende tributo à obra do dramaturgo e escritor russo, considerado pai do teatro realista
Maria Eugênia de Menezes
SÃO PAULO - Diante do sem-número de intelectuais, atores e diretores que chegavam em procissão do mundo inteiro, o presidente russo Dmitri Medvedev não teve dúvidas. Deixou de lado questões protocolares e cedeu seu avião oficial para que o grupo pudesse ir até Taganrog, cidade onde, exatamente 150 anos antes, nascera Anton Tchekhov (1860-1904).

Revelador, o ato de Medvedev dá a medida da importância que o aniversário do grande contista e dramaturgo, comemorado em janeiro deste ano, teve na Rússia. Mas não é apenas lá que a efeméride foi lembrada. Por aqui, ainda que com atraso de alguns meses, a data também deve ensejar comemorações, como o evento Tchekhov 150 Anos, que a Caixa Cultural Sé abre hoje.

Na extensa grade de atividades, apresentações teatrais, leituras dramáticas, palestras e oficinas devem retomar o legado do escritor, que alterou os rumos da prosa moderna com sua escrita sem excessos e seu gosto pelo realismo da existência cotidiana da burguesia. "Ele encerra a época de ouro da literatura russa, o período de Tolstoi e Dostoievski, e abre os caminhos para algo novo. Especialmente após a 2ª Guerra, existe um forte movimento de redescoberta de sua obra e Tchekhov foi alçado à condição de Shakespeare do século 20", comenta a pesquisadora russa e professora da USP, Elena Vássina, que participa de debate no dia 23.

Além de Elena, também integram a programação, que se estende até o dia 27, artistas e intelectuais, como o tradutor Boris Schnaiderman e os diretores Eduardo Tolentino, Maria Thais e Francisco Medeiros.

Natureza humana. Responsável por uma aclamada montagem de A Gaivota, na década de 1990, Medeiros retornou à obra do autor com o drama Réquiem. A peca, a ser apresentada em três sessões na Caixa Cultural, foi escrita pelo dramaturgo israelense Hanoch Levin a partir de três contos de Tchekhov e versa sobre a desilusão de um marceneiro, artesão de caixões, que, ao chegar à velhice, depara-se com a solidão. "Aqui, da mesma forma como acontece em O Jardim das Cerejeiras, o que importa é o que está subliminar", diz o diretor. "Tchekhov foi, sobretudo, um investigador dos mistérios da natureza humana."

Das criações tchekhovianas para o teatro, o público poderá conferir peças como A Gaivota, em leitura dramática conduzida por Denise Weinberg, e As Três Irmãs, em montagem da Cia. dos Desejos. Também merece relevo dentro da programação a extensa correspondência do dramaturgo, ressaltada em duas das encenações apresentadas: Aponto Tchecov, dirigida por Fernando Neves, e O Ruído Branco da Palavra Noite, da Cia. Auto-Retrato.

Mais conhecido por seu trabalho de investigação sobre o circo-teatro, Fernando Neves lança-se à aventura de exumar as cartas trocadas entre o escritor e seu editor, Aleksei Suvórin.

Já no caso de O Ruído..., o foco recai sobre a epistolografia dos grandes nomes do Teatro de Arte de Moscou. Foi debruçada sobre o livro O Cotidiano de Uma Lenda - Cartas do Teatro de Arte de Moscou, de Cristiane Layher Takeda, que a dupla de diretores Caetano Gotardo e Marina Tranjan colheu testemunhos da relação de Tchekhov com figuras essenciais, como Nemiróvitch-Dantchenko e Konstantin Stanislavski.

Em cena, os fragmentos lançam luz sobre a grande revolução teatral em curso na Rússia daquela época, tratam de episódios da vida pessoal do "pai do realismo", e também aparecem pontilhados por excertos de textos como Tio Vânia. "Havia nessas cartas uma inquietação, e esse é um sentimento que permeia também as suas peças", comenta Gotardo. "Equivocadamente, fala-se muito na falta de ação dos seus personagens, mas existe neles sempre um movimento, uma vontade, ainda que frustrada, de romper com esse imobilismo."

Programação

1ª semana
3/6
19 h - Leitura dramática da peça O Jardim das Cerejeiras, de Anton Tchekhov, com direção de Maria Thais.
4 e 5/6
19 h - Peça As Três Irmãs, de Anton Tchekhov, com a Cia. dos Desejos.
6/6
18 h - Peça As Três Irmãs
2ª semana
9/6
18h30 - Palestra Tchekhov e a Estética do Infinito, com Luiz Felipe Pondé
10/6
19 h - Interpretação e Linguagem, encontro com Denise Weinberg, Caetano Gotardo e Maria Thais
11 e 12/6
19 h - Peça O Ruído Branco da Palavra Noite, com a Cia. Auto-Retrato. Direção e dramaturgia Caetano Gotardo e Marina Tranjan
13/6
18 h - Peça O Ruído Branco da Palavra Noite
3ª semana
17/6
19 h - Leitura dramática da peça A Gaivota, de Anton Chekhov,com direção de Denise Weinberg
18 e 19/6
19h - Peça Réquiem, de Hanoch Levin, com direção de Francisco Medeiros
20/6
18h - Peça Réquiem
4ª semana
23/6
19 h - Palestra sobre teatro e literatura russa com Elena Vássina e Boris Schnaiderman
24/6
19 h - O Texto e a Escolha da Encenação, encontro com Marina Tranjan, Eduardo Tolentino de Araújo e Francisco Medeiros
25/6
19 h - Peça Aponto Tchekhov, de Alfredo Tambeiro, com direção de Fernando Neves
26/6
10 h às 13 h - Oficina de interpretação Elementos da Montagem da Peça As Três Irmãs, com a Cia. dos Desejos
19 h - Peça Aponto Tchekhov
27/6
10 h às 13 h - Oficina de interpretação Elementos da Montagem da Peça As Três Irmãs, com a Cia. dos Desejos
18h - Peça Aponto Tchekhov

TCHEKHOV: 150 ANOS - Caixa Cultural (100 lugares). Praça da Sé, 111, 3321-4400. 4ª a dom., 18h, 18h30, 19h. Grátis. Até 27/6

Fonte: Estadão

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