segunda-feira, 19 de julho de 2010

O romance em versos de Pushkin

MANUEL DA COSTA PINTO para a Folha de SP

A literatura russa é um fenômeno editorial, com a ampla repercussão de obras de Gógol, Dostoiévski, Tolstói e Tchekov em traduções feitas do original. Faltava a versão da obra-prima de seu fundador: "Eugênio Oneguin", de Alexandr Pushkin (1794-1837).

Já havia livros de Pushkin por aqui: a coletânea de contos "A Dama de Espadas" (Editora 34), as peças de "Pequenas Tragédias" e o drama histórico "Boris Godunov" (ed. Globo).

Nenhum deles oferece as dificuldades de "Eugênio Oneguin", caso único, entre os clássicos da literatura moderna, de um romance escrito em versos. A matéria-prima de Pushkin, entretanto, nada tem que ver com os épicos da Antiguidade. Trata-se de um enredo de desencontro amoroso com elementos do romantismo literário.

Oneguin é um "dandy", um nobre galante calcado na figura do poeta inglês Byron, que alterna momentos de dissipação com o "spleen", o tédio de quem viveu a intensidade a ponto de perceber seu vazio. Ele conhece o poeta Vladimir Lenski e as irmãs Olga (prometida de Lenski) e Tatiana Lárin, que se apaixona por Oneguin e escreve uma declaração que ele rejeita.

Durante um baile, Oneguin corteja Olga e é desafiado a um duelo por Lenski, que morre no confronto. Não há vilania em Oneguin, apenas uma altivez aristocrática cuja frivolidade ele percebe no momento em que reencontra Tatiana já casada e madura, uma "majestosa legisladora de salões", tão fiel ao marido quanto ao amor juvenil a que renuncia.

A singularidade do livro está na forma: estrofes compostas por sonetos sem divisão de quartetos e tercetos --com os 14 versos formando microcapítulos cadenciados por rimas seguidas com notável rigor pelo tradutor Dário Moreira de Castro Alves.

Detalhe fundamental: não é só a primeira versão da obra de Pushkin no Brasil. É a primeira tradução para língua portuguesa. Deve ser saudada como acontecimento histórico.

LIVRO
"EUGÊNIO ONEGUIN"
AUTOR: Alexandr Pushkin
TRADUÇÃO: Dário Moreira de Castro Alves
EDITORA: Record
(288 págs., R$ 47,90)

CONEXÃO

DISCO
"EUGEN ONEGIN"
Na interpretação da Staatskapelle Dresden, sob a batuta de James Levine, a ópera de Tchaikovsky permite ouvir como o texto de Pushkin soa na língua original.
Autor: Pyotr Ilyich Tchaikovsky
Distribuição:
Deutsche Grammophon
(R$ 145,60, CD duplo)

DVD
"PAIXÃO PROIBIDA"
Essa adaptação (cujo título em inglês, "Onegin", não esconde sua fonte pushkiniana) tem Liv Tyler e Ralph Fiennes, irmão da diretora, como protagonistas.
Direção: Martha Fiennes
Distribuição: Escala (R$ 19,90) fora de catálogo

3 comentários:

  1. Parabéns pela iniciativa do blog. A importância da literatura russa deve ser sempre ressaltada.

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  2. Fui na livraria, folheei, mas não levei.
    Prosa em versos sempre me desanima.
    Mas, eventualmente, vou acabar comprando. Seria melhor se fosse bilíngue.

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  3. Há também, da Ed. Martin Claret, "A filha do capitão" e "A dama de espadas" (2006). Encontrei (e devorei), num sebo, em capa dura, da Otto Pierre Editores (1980) a coletânea "Contos Breves", que reúne "A casinha solitária da Ilha Basílio", "A fidalga camponesa", "Azar no jogo", "O desafio", "O bandido Dubrovsky", "O Czar Salta, o valoroso herói Gvidon Saltanovich e a formosa Princesa Cisne", "Conto da cvarena morta e dos sete guerreiros" e "O prisioneiro do Cáucaso".

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