sábado, 10 de julho de 2010

Púchkin: o Dom Casmurro da Rússia

Por EULER DE FRANÇA BELÉM, retirado da revista Bula.

Há uma preciosidade no mercado: “O Botão de Púchkin” (o título, aparentemente medonho, tem explicação, que não vou revelar), de Serena Vitale (Editora Record, 416 páginas). O livro da scholar italiana não é uma biografia de Púchkin (optei por manter o acento, como fazem Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra, tradutores do russo do primeiro time), maior poeta russo, e, sim, um relato de seus últimos dias. Púchkin morreu em duelo com o francês Georges Charles d’Anthès, em 1837, aos 37 anos. O poeta bateu-se com d’Anthès porque cartas anônimas distribuídas a vários de seus amigos revelaram que o cavaleiro da guarda russa tinha um caso, ou quase, com sua mulher, Natália Puchkina.

Para evitar o duelo, d’Anthès casou-se com uma irmã de Natália, Ekaterina. Púchkin desistiu de bater-se com o oficial, mas, acreditando que as cartas anônimas haviam sido escritas pelo embaixador holandês Jacob van Heeckeren, pai adotivo (e, talvez, amante) de d’Anthès, decidiu desafiá-lo. D’Anthès assumiu as dores do pai-amante e decidiu aceitar a disputa. Ele atirou primeiro e feriu mortalmente Púchkin. Este também atirou, mas d’Anthès saiu praticamente ileso. Voltou para a França, onde morreu, senador e rico, em 1895.

Serena Vitale é uma pesquisadora infatigável, mas, ao contrário de muitos acadêmicos, escreve muitíssimo bem, o que significa que seu texto é preciso, sem muletas como “em última instância” e “no bojo”. “Botão de Púchkin” é livro acadêmico, em termos de pesquisa exaustiva, mas escrito quase como um romance policial. Trata-se de uma investigação policial, judicial e históri(c)a de primeira grandeza. Não se trata de um exame da obra do poeta.

O leitor bisbilhoteiro (qual não é?) pode perguntar: Natália Puchkina traiu realmente Púchkin? Quem escreveu as cartas anônimas? Púchkin teve mesmo um caso com a cunhada Alexandrine Gontcharova? Serena Vitale apresenta evidências de que o ciumento Púchkin teve, sim, um caso com a cunhada. Se busca respostas exatas, o leitor pode se decepcionar com a seriedade da pesquisa de Serena Vitale. “Não somos narradores oniscientes, mas apenas pacientes restauradores de um mosaico a que faltam numerosos fragmentos”, ressalva (página 177). A professora especula que as cartas foram escritas pelo príncipe Piotr Dolgorukov, mas lista outros possíveis autores. Mesmo rigorosa, raramente é conclusiva.

Não há provas cabais de que Natália traiu, fisicamente, Púchkin, mas é fato que adorava a companhia de d’Anthès, com quem dançava com freqüência. Se a traição pode ser vista de uma forma mais espiritual, sim, Natália traiu o marido, pois flertava abertamente com d’Anthès, seu cunhado. “Existem duas espécies de cornos; aqueles que o são de fato sabem como se comportar; outros o são pela graça do público, e o caso deles é o mais embaraçoso: é o meu”, escreveu o poeta. Ele não tinha certeza, pois, da infidelidade de Natália, 13 anos mais nova. A tragédia russa antecipa “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. Púchkin é Bentinho — Natália, Capitu.

Uma história interessante: ao descobrir que toda a sua correspondência era violada pela polícia, Púchkin começou a escrever cartas para sua mulher, com críticas diretas e indiretas às políticas do czar. O objetivo era que o czar soubesse de sua insatisfação. Outra revelação: o poeta teve um caso rápido com Dolly, bisneta de Kutuzov, o general que derrotou Napoleão, em 1812. Tido como “pai” da grande literatura russa, Púchkin tinha consciência de seu talento e singularidade. Moribundo, o poeta disse: “Aqui não viverei, eu sei”. Serena Vitale esclarece: “Aqui: no século” (o 19). Ele sabia de sua eternidade. Como Dostoiévski, era um devedor contumaz. “O czar [que dizia ser Púchkin “o homem mais inteligente da Rússia”] não me permite ser proprietário de terras nem jornalista. Escrever livros por dinheiro, Deus é testemunha, não posso”, escreveu Púchkin, em carta para Natália.

Defeito da edição brasileira: Serena Vitale conta que Natália Puchkina era “uma das mulheres mais bonitas de São Petersburgo, a cujas graças nem o czar era indiferente”. No entanto, não há sequer um retrato que possa comprová-lo. A aquarela (de V. Gray) que ilustra este texto colhi no livro “Prosa Escogida”, de Púchkin, publicado pela Editorial Progresso. Púchkin é autor de “Eugênio Oneguin”, romance em versos, e, entre outros, “A Filha do Capitão”. Eugênio Oneguin foi adaptado para o cinema com o título de “Paixão Proibida”, com Ralph Fiennes e Liv Tyler.

No excelente “Adorável Comunista — História Política, Charme e Confidências de Fernando Sant’Anna” (Versal Editores), de Antônio Risério, uma informação de primeira: “O primeiro tradutor de literatura brasileira para o russo foi um grande poeta: Púchkin. E o texto escolhido por Púchkin foi a lira LXXI de Tomás Antônio Gonzaga, que vai aparecer, na coletânea de obras do poeta russo, sob o título de S Portugálskovo (Tam zvezdá zari vzochlá...) — Do português (lá surgiu a estrela d’alva...)”. A tradução foi feita a partir do francês.

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