sexta-feira, 30 de julho de 2010

Quando o autor está fora da tela

Adaptação cinematográfica do principal trabalho do ficcionista russo, dirigida por King Vidor, foi tratada sem reverência no caderno

O espetaculo cinematografico Guerra e paz oferece ocasião para o prosseguimento do debate em torno da validez da transposição de obras literárias, que é uma constante do cinema desde os seus primordios. Ainda hoje, apesar do apreciavel desenvolvimento da profissão de escritor cinematográfico, calcula-se em mais de um terço do total o numero de fitas cujo ponto de partida é uma obra literaria. A já longa experiencia demonstra não existir relação necessaria entre o nivel artistico do texto literario e o de sua adaptação cinematografica. "The Clansman" e "The Leopard"s Spots", duas novelas mediocres, e o proprio nome do autor, Thomas Dixon, são lembrados apenas porque foram os textos de base que Griffith utilizou em O Nascimento de uma Nação. O romance "Me Teague", de Frank Norris, há pouco reeditado, ocupa no panorama da cultura moderna uma posição incomparavelmente modesta frente a Greed, sua transposição para o cinema realizada por Stroheim. Por outro lado, a mediocridade ou as qualidades artísticas do original e da adaptação podem ser equivalentes, como foi o caso de Gone with the Wind ou de Le Diable au Corps, de Radiguet, filmado por Autant-Lara. Existem finalmente os casos em que os filmes são inferiores aos textos que os inspiraram, sendo essa a regra para as incontaveis vezes em que o cinema se aventurou a interpretar as obras-primas da literatura. O fenomeno é logico, e valerá a pena examiná-lo mais de perto em outra ocasião, bastando por ora lembrar que não tem relação com a tão falada especificidade da literatura ou do cinema, ou com a pretensa incomunicabilidade entre os dois generos. Se até hoje as adaptações de Stendhal à tela têm sido mais ou menos infelizes, algumas passagens de Senso, de Visconti, que não tem ligação direta com a obra stendhaliana, refletem as ricas possibilidades de um "beylismo" cinematográfico. Ultimamente, aliás, tem havido filmes cujo nivel artistico nada tem de afrontoso aos textos classicos que os inspiraram. (...)

A insatisfação que nos causa Guerra e Paz não se deve a nenhuma vulgarização excessiva. O nivel do espetaculo é alto sob muitos aspectos, as personagens e situações que comporta foram todas calçadas no romance. Na maior parte do tempo, porém, o espirito que Tolstoi lhes inculcara se evaporou na transposição. Houve ainda algo pior do que a incapacidade em captar a natureza das personagens ou o sentido das situações: em algumas sequencias a fita procurou valorizar precisamente aquilo que nas passagens correspondentes o romancista negou e destruiu, como os clichês historicos convencionais herdados do romantismo, pelos quais Tolstoi tinha horror.

2 comentários:

  1. Só tem uma coisa que eu gosto mais do que Literatura Russa: Audrey Hepburn. Mas o filme tem muitas falhas como adaptação mesmo. Falta-lhe o espírito russo.

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  2. Mano, você é muito clássico! AHAHA

    Algum dia, com paciência, verei aquela versão russa do clássico. Também tem duas ou três de hollywood da Ana Karenina, né?

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