segunda-feira, 19 de julho de 2010

A trajetória do guerreiro Khadji-Murát

Do jornal A Notícia.

Antes de voltar à questão da flor, é necessário situar um pouco o leitor na trajetória do herói do livro. Khadji-Murát é o símbolo da resistência russa contra o czarismo. Por questões particulares, abandonou o seu clã caucasiano para aderir aos russos que lutavam contra o poderoso Chamil. Este último é um comandante de rebeldes chechenos tão cruel que não há como descrevê-lo de outro modo e cujo opositor o czar Nicolai 1º é a sua outra face, dois em um só, Jano Bifronte, separados pelos ideais de domínio e sede de poder e sangue. O texto de Tolstói antecipa a revolução de 17 de outubro.

“Khadji-Murát” surge nesse rosto bipartido – entre os olhares do czar e os do comandante maior do Cáucaso – como a terceira face. É o homem que ilumina sua passagem pela vida e pela guerra com a poesia da montanha, de onde veio. Nesse aspecto, entra em cena o Tolstói de “A Morte de Ivan Illitch”, perscrutador do caráter humano e crítico da burguesia.

Nessa novela, interessa a avaliação do caráter e do espírito humano – como Dostoiévski o fez em “O Idiota”. Aliás, o livro que mais o decepcionou porque, ao engendrar a história de um homem bom, o príncipe Minchkin, ele percebeu, ao final, que mesmo na ficção isto era impossível: criar o homem perfeito, inteligente, honesto.

Tolstói sofreu da mesma doença. Mas ao contrário de Dostoiévski, aplica na matéria de carpintaria do texto a sutileza e o zelo pela linguagem. Sugere ao leitor as metáforas que lhe são convenientes e conforma este relato que fala muito mais dos desejos e dos sonhos da experiência humana do que da guerra.

Depõe a favor desta experiência sobre o quanto há de fragilidade na alma do herói, no espírito de todos nós, como a bardana, esmagada pelas rodas de uma carruagem, mas que, ainda assim, rebrota nos campos semeados e negros das planícies do inatingível Cáucaso.

“Mas que energia e que força vital. Com que tenacidade ela se defendeu e vendeu caro a vida”, admira-se o narrador, na página 22 – que confunde o leitor e transforma a obra em uma narrativa de duplo ponto de vista. Nada mais moderno para a época, 1910, quando a novela foi publicada – o ano da morte do escritor.

“Khadji-Murát”, de Liev Tolstói.
Tradução de Boris Schnaiderman. CosacNaify, 224 páginas. R$ 33.

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