sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Um gênio em busca de respostas

Morto há exatos cem anos, Liev Tolstói ganha em 2011 nova tradução do monumental Guerra e Paz e tem seus momentos finais contados no filme A Última Estação, que estreia em janeiro


Por Antônio Gonçalves Filho, para o Estadão

O centenário de morte do escritor russo Liev Tolstói (1828- 1910), que transcorre hoje, tem mobilizado o mundo em 2010. E por aqui, logo no início do próximo ano, trará em sua esteira o lançamento do filme A Última Estação, marcado para 28 de janeiro. O longa é baseado no livro homônimo do americano Jay Parini. Também em 2011 será publicada no Brasil uma tradução da mais ambiciosa obra do russo, Guerra e Paz. Aliás, o tradutor, Rubens Figueiredo, acaba de ganhar o prêmio Paulo Ronái da Fundação Biblioteca Nacional por sua versão para o português de Ressurrreição, o livro mais polêmico do autor.

Parini e Figueiredo falaram ao Sabático sobre sua longa convivência com a obra do gênio russo. Parini, que dá aulas no Middlebury College (Vermont, EUA), conversou com seu colega de trabalho Mario Higa (leia entrevista nesta página) sobre A Última Estação (Record), relato dos momentos finais de Tolstói. Figueiredo - que, além dos livros citados, já traduziu também o monumental Anna Kariênina, sempre para a editora Cosac Naify - atendeu à reportagem do caderno pouco depois de saber de sua premiação.

Curiosamente, tanto Jay Parini como Rubens Figueiredo, trabalhando na reconstituição da vida e da obra do russo, concluíram que Tolstói não foi aquele escritor que os biógrafos chamam de "doutrinário". Foi, sim, um reformista que, por condenar o materialismo, os governantes e a Igreja Ortodoxa Russa, sofreu a censura czarista e do clero. Para Figueiredo e Parini, o que chama atenção no ficcionista - sempre em busca de respostas - é a profusão de perguntas que faz a si e aos seus leitores.

"Tolstói aposta em respostas, mas elas são questionadas por ele mesmo e derrubadas, levando sempre a finais abertos, como o de Anna Kariênina", diz Figueiredo. Onde estaria o doutrinário no debate político-religioso do epílogo do romance, após o suicídio da adúltera Kariênina, corroída pela culpa? "O pensamento de Tolstói não sossega, ele não encontra chão estável", observa o tradutor, comparando-o ao protagonista de Ressurreição, "que está num processo de ampliação da consciência sem chegar a uma resposta".

A exemplo do aristocrata que persegue a redenção espiritual em Ressurreição, também o conde Tolstói busca em seu livro a oportunidade de corrigir um erro do passado - ambos se envolveram com criadas e as engravidaram, abandonando-as à própria sorte, sendo que, no romance, o nobre a revê anos depois no tribunal, então como uma prostituta detida sob acusação de ter roubado e envenenado um cliente. Nesse último romance escrito pelo russo, em 1899, consciente de sua culpa, o aristocrata Dmítri Ivánovitch Nekhliúdov segue a prisioneira Katusha até a Sibéria, disposto a casar - mas ela não acredita nele. O leitor reconhece no personagem o despertar de uma consciência e um sincero desejo de transformação - na época, Tolstói também já era um defensor de ideias igualitárias e pacifistas, clamando contra a injustiça praticada nos tribunais russos e o que considerava ser a hipocrisia da Igreja. O Estado e as autoridades eclesiásticas deram o troco. Ressurreição sofreu cortes, feitos pela censura czarista, sendo restaurado apenas em 1936 - versão usada para a edição brasileira.

O premiado Rubens Figueiredo lutou para publicar Ressurreição no Brasil. A fortuna crítica do livro - baseado em fatos verídicos - não registra lá fora resenhas tão entusiasmadas quanto a de seus livros anteriores, talvez porque o aristocrata Tolstói não veja a criada como a verdadeira criminosa, mas a sociedade que a condena, por ter ignorado sua condição quando mais Katusha precisava de apoio. "Vi as provas tipográficas de Ressurreição e as inúmeras correções que Tolstói fez ao lado delas, revelando o quanto ele ainda tinha a dizer", conta Figueiredo, observando que essa fúria revisional não foi um capricho sintático do autor, conhecido por suas frases longas e palavras repetidas, mas uma atitude de quem tinha sempre algo a mais a falar. O épico Guerra e Paz é um exemplo disso: o original russo tem quatro volumes e 508 personagens tirados da vida real, alguns bem conhecidos como Napoleão, julgado sem piedade por sua arrogância.

Os detratores de Tolstói o acusam do mesmo pecado - acrescentando o da inconsistência de suas crenças e da superioridade moral, as quais influenciariam seu amigo Gandhi em sua proposta de resistência pacífica. Biógrafos menos interessados em suas qualidades lembram que Tolstói esgotou o estoque de mercúrio russo para tratar de inúmeras doenças venéreas resultantes de uma agitada vida sexual, dentro e fora do casamento, antes de pregar a abstinência. Ele, ao menos, teve a honestidade de expor seu diário - e as aventuras nele reveladas - à leitura da mulher, sua colaboradora. Foi Sophia querm copiou e corrigiu os manuscritos de Guerra e Paz, mas foi também a mulher que teria envenenado o marido, segundo as más línguas.Tolstói saiu de casa em 28 de outubro de 1910, deixando uma carta conciliatória, porém poucos dias mais tarde confessou à filha Sasha que não suportava mais a malícia e a hipocrisia da esposa.

Não era a reação esperada de quem elegeu o Sermão da Montanha como guia e desejava seguir as palavras de Jesus. Tolstói alcançou relativo sucesso como líder espiritual e político, tendo inspirado anarcopacifistas com o trecho mais conhecido desse texto bíblico - oferecer a outra face quando ofendido. O czar quis comprovar ao vivo essa disposição, enviando emissários à estação ferroviária de Astapova - onde ele morreu, quando fugia de casa -, para se certificar que os seguidores de sua escola moral não o usariam, morto, como bandeira revolucionária. "Pouco se fala do esforço que seus leitores fizeram para preservar sua obra sem censura, como os estudantes que espalhavam cópias de seus manuscritos", diz Figueiredo, lembrando que vemos o escritor hoje mais como uma figura institucional do que um líder cuja casa era vasculhada pelos censores do czar e só escapou do exílio por causa de sua origem aristocrática. 

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